Santo Agostinho e Dostoievski: considerações filosóficas sobre o amor a Deus e ao próximo

Santo Agostinho e Dostoievski: considerações filosóficas sobre o amor a Deus e ao próximo


Quando inquirido sobre qual seria o maior mandamento Jesus é enfático ao responder: “Amarás ao senhor teu Deus de todo teu coração, de toda a tua alma e de todo teu espírito. Esse é o maior e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 22, 34-39). De certa forma, esses dois mandamentos, que na realidade da vivência cristã constituem um todo em relação, podem ser considerados como síntese do ensinamento e vida de Jesus, não obstante, figuram ainda hoje como marca distintiva do cristianismo no mundo. Entretanto, na atual atmosfera laica na qual se vive hodiernamente, parece que se dissemina uma ruptura interna na dupla estruturação do mandamento de Jesus. Não é difícil ouvir discursos do tipo: “não é preciso amar a Deus para amar o próximo…ou…se se ama a Deus não é preciso preocupar-se com o outro”. Tal ruptura, a despeito de ter muitos fatores envolvidos nela, pode ser lida, principalmente, por meio da ótica do pensamento abstrativo, ou seja, do pensamento que toma certo aspecto da realidade e, da ideia que tem dele, categoriza todo o restante. Assim sendo, por exemplo, para o materialismo a realidade traduz-se em aquilo que é empiricamente verificável; para o idealismo ela é um produto das ideias humanas e assim por diante. Não é preciso ser muito versado para ver que a realidade mesma é alheia a tais conjeturas. Todavia, esse tipo de pensamento abstrato/metonímico tem, histórica e atualmente, a pretensão de impor-se como critério inquestionável na vida das pessoas. De fato, na recente conjuntura sociocultural, fortemente permeada pelo cientificismo e pelo ateísmo, o amor a Deus é muitas vezes visto apenas como uma hipótese ainda considerada pelos indoutos, ou, no máximo, como fator explicativo ad hoc para aquelas dúvidas que teimam em assolar a humanidade. Até mesmo no cristianismo o ideal materialista/cientificista tem resfriado e relativizado a fé de muitos fiéis. Aliado a isso, parece que as relações particulares entre as pessoas, cada vez mais, tem se tornado um comércio de abstrações, ou seja, a realidade do outro tornou-se material quantificável. Com isso em vista, surgem algumas questões: qual é a relação do amor a Deus com o amor ao próximo concretamente explicitada na vida e no ensinamento de Jesus e que hoje perece estar se esfacelando? Será Deus mesmo apenas essa hipótese extra científica, um conceito ultrapassado, sem valor para o homem? Tais questões reportam-se diretamente a um dos âmbitos mais elementares da existência humana, a saber, o do sentido. Afinal, o que ou
quem são o próximo e Deus na vida de cada um? São eles, Deus e o próximo, elementos facilmente separáveis por meio de uma concepção analítica mais “evoluída” da prática do amor? Defronte a essa complexa problemática, talvez seja possível buscar auxílio em dois autores que encarnaram todas essas perguntas em suas vidas, são eles, Santo Agostinho (354-430) e Dostoievski (1821-1881). Mais precisamente, dada a riqueza de cada um desses autores, trabalhar-se-á aqui, em Santo Agostinho, o primeiro mandamento “Amar a Deus” e em Dostoievski o segundo “amar ao próximo”. Em seguida intentar-se-á uma inferência vinculativa a partir das reflexões expostas a fim de perceber a possível contribuição de ambos os autores no que concerne a inseparabilidade e a concretude do ensinamento de Jesus.

O amor de Deus a tudo precede

Um dos espíritos mais filosóficos dos quais se tem notícia, Santo Agostinho, além de narrar o drama de sua existência nas Confissões, um clássico registro da alma humana em busca de Deus, deixa também um importante registro no que concerne à relação amorosa que existe entre o ser humano e seu criador. Esse registro não parte de uma mera ideia acerca de Deus, mas da constatação da Sua presença constante na biografia real de uma vida, com seus anseios, medos e pecados. Por isso, pode-se dizer que o bispo de Hipona adianta muitos aspectos do pensamento moderno voltado para o “eu”. Entretanto, esse eu agostiniano não é uma dedução lógica ou um fundamento gnosiológico abstrato, mas sim o terreno no qual Deus habita.
Da célebre frase presente no livro I das Confissões de Santo Agostinho : “Tu o incitas [o homem] para que sinta prazer em louvar-te, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.” (AGOSTINHO, 2002, p. 19) é possível extrair elementos fundamentais no que diz respeito à relação amorosa entre Deus e homem. Já nessa pequena invocação está contida uma das principais contribuições do principal autor da patrística para todo o pensamento e prática cristã, a saber, o de que Deus, ao mesmo tempo em que antecede o homem enquanto seu criador, também é íntimo ao coração humano. Dessa forma, o legado do pensamento agostiniano, principalmente o contido no livro das Confissões, aponta para o fato de que, mediante a confissão sincera da vida de cada um, isto é, quando o homem deixa de lado seu desejo de onipotência e abre-se a sua própria finitude, nessa atitude, precisamente, há o desvelamento da verdade que sempre esteve presente à alma humana, a verdade que é Deus.
À contramão de todo intuito moderno, pretensamente antropocêntrico, Santo Agostinho põe-se em uma atitude autêntica perante a sua própria existência e constata que, muito embora seu eu esteja sempre presente em todo decorrer de sua vida, nem por isso esse eu é causa e razão última de seu existir (em categorias aristotélicas, ele sabe que é, mas não sabe o que é). Isto é, deixando que a realidade mais elementar tenha voz, a saber, a de que ele, Agostinho, existe contingentemente em um determinado tempo, o autor das Confissões percebe que ele mesmo é abarcado na totalidade divina; “Pois eu não existiria, meu Deus, eu de forma alguma existiria , se não estivesses em mim” (AGOSTINHO, 2002, p. 20). Justamente nessa abertura do coração para essa evidente verdade que se impõe aos olhos de qualquer um, ou seja, a de que ninguém é causa de si mesmo, é que subsiste a possibilidade do amor a Deus. Não que a iniciativa desse amor seja pura e simplesmente a ação humana, antes, é o ato de perceber-se compreendido desde sempre no amor divino que antecede o indivíduo que faz com que esse se encontre em Deus. Nesse sentido, a confissão de Agostinho, pode ser caracterizada como uma confissão da verdade, um sincero enfrentamento humano frente a seu latente desejo de onipotência; “Que minha alma te louve para te amar, que confesse as tuas misericórdias para te louvar.” (AGOSTINHO, 2002, p. 117). Note-se bem, o encontro da alma com Deus dá-se não por um rebuscado raciocínio com intermináveis inferências que mais confundem do que auxiliam. Deus não é um conceito, Ele é pessoalidade particular e, ao mesmo tempo, origem de todas as coisas. Assim sendo, o modo de chegar a esse estado de união amorosa não se dá por um modo meramente abstrato, é antes um interrogar a realidade mais imediata da existência, tanto a exterior, quanto, e principalmente, a interior. Em outras palavras, na velha pergunta “quem sou eu?” oculta-se outra pergunta que angustiava Agostinho e, possivelmente, ainda angustie, no bom sentido filosófico do termo, a cada ser humano, a saber, “quem é Deus?”. Não que essas sejam perguntas fáceis, a própria história de Agostinho é uma Odisseia de retorno a Deus “Trade te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! […] Tu me chamastes e teu grito rompeu a minha surdez.” (AGOSTINHO, 2002, p. 299). Não obstante, é na relação dialética real entre essas duas questões que se revela aquilo de mais divino presente no homem, o saber-se eternamente amado por Deus. Se não é possível amar o que não se conhece, no despojar-se perante a verdade da realidade e de si mesmo revela-se que ambos esses aspectos já são conhecidos por Deus e, por conseguinte, Deus se dá a conhecer. Esse dar-se a conhecer não acontece abstrata ou conceitualmente, dessa forma Deus estaria limitado às categorias humanas. Antes, é uma infusão da graça divina
sempre presente na concretude da vida e da história de cada pessoa. Por meio dessa interação entre a vida do homem e a graça de Deus, abre-se, também, o horizonte da Salvação tão deturpado pela pobre concepção do homem centrado em si mesmo como legislador universal. Nesse horizonte soteriológico ganha significado o fato de que Deus mesmo, por um ato de amor, assumiu a condição de criatura a fim de que todos que Nele cressem tenham a vida em abundância. É nesse mistério que Agostinho medita e confessa ser compreendido, é também nesse mistério divino que o amor de Deus socorre o homem chamando-o das trevas para sua luz admirável.
Com isso, é possível perceber a riqueza dessa via interior de amor a Deus legada pela experiência existencial de Santo Agostinho “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora” (AGOSTINHO, 2002, p. 299). Por isso, o método confessional não é apenas um relato de pecados ou crimes efetuado de forma mecânica, mas uma experiência vívida de confronto entre o homem e sua existência. Desse modo desvela-se a possibilidade do encontro entre o “Deus que se esconde” (Is 45,15) e o “homem oculto no íntimo do coração” (1Pd 3,4). Nesse encontro ganha significado a epopeia da alma humana, que, como bem mostra Agostinho, não é livre de sofrimento e desvios de rota. Ainda, é nesse confronto que cria-se um vínculo de amor entre o Deus que se revela ocultando-se e homem que quanto mais oculta-se em Deus mais se revela; o finito, o criado, o contingente, o ser portador de uma história particular pode perceber sua vida sustentada não somente na estrutura da possibilidade universal (constatação metafisicamente verdadeira), mas dar-se conta de que essa possibilidade está contida em uma pessoalidade divina que se revela ao ser do homem como seu verdadeiro sustento e sentido. Não que esse vínculo íntimo de amor não possa ser vivenciado de outra forma, a misericórdia de Deus não conhece limites. Contudo, em um mundo no qual Deus tem sido, cada vez mais, objeto de discussões conceituais é importante lembrar de que Ele não é um conceito e sim um Deus amoroso, origem de todas as coisas, que se revelou em seu filho Jesus Cristo e continua atraindo os corações dos homens a si.
Mas e o amor ao próximo, tão caro no ensinamento de Jesus, que relação possui com a interação amorosa Deus-homem? O que é de fato o próximo? Aqui entra uma interessante reflexão de Dostoievski.


O próximo não é a humanidade em geral

Uma das obras clássicas da literatura universal e também da literatura cristã é, sem dúvida, Os irmãos Karamázov. Assuntos como o problema do mal, do sofrimento, do crime e do castigo, ateísmo e cristianismo mesclam-se em uma genial interpenetração de conteúdo em uma das mais belas histórias da real possibilidade existencial humana explicitada na forma de ficção. Não obstante, uma das principais preocupações do escritor russo no século em que viveu foi a decadência do cristianismo. Nesse sentido, Dostoievski foi um profeta do século XIX. Dizia ele que ao substituir Deus pelo utilitarismo, pelo materialismo e pelo niilismo o amor que une as pessoas seria fatalmente dissolvido em etéreas ideias que, mais do que progresso, trariam indiferença coletiva e sofrimento.
Para os restritos fins desse texto destaca-se um pequeno diálogo do monge Zossima com uma mulher, a senhora Khokhlakova. Para situar a conversa, a tal senhora estava falando ao monge de que era capaz de um grande amor pela humanidade e sentia-se inclinada para isso, contudo, tão logo percebesse que seu amor pela humanidade era retribuído com ingratidão ela temia que seu amor resfriasse. Em seguida, em uma daquelas falas antológicas da literatura cristã, Zossima conta, para a tal senhora, uma pequena história sobre um médico. Aqui é mister transcrever a fala na íntegra.

Era um homem já entrado em anos e, sem dúvida, inteligente. Falava com a mesma franqueza que a senhora, embora em tom de brincadeira, mas de uma brincadeira dorida; eu, dizia ele, amo a humanidade, mas me admiro de mim mesmo; quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo os homens em particular. […] Mal a pessoa se aproxima de mim, e eis que sua personalidade já esmaga meu amor-próprio e tolhe minha liberdade. Em vinte e quatro horas posso odiar até o melhor dos homens: este por demorar muito a almoçar, aquele por estar resfriado e não parar de assoar o nariz. Eu, dizia, viro inimigo das pessoas mal elas roçam em mim. Em compensação, sempre acontecia que quanto mais eu odiava os homens em particular, mais ardente se tornava meu amor pela humanidade em geral. (DOSTOIEVSKI, 2000, p. 92)

Nesse pequeno trecho da fala do monge Zossima encontra-se um típico exemplo de pensamento que se abstrai da realidade e, por conseguinte, de alguém que, em sua vida, realizou uma separação entre a dupla estruturação do ensinamento de Cristo. Viu-se que, em Santo Agostinho, uma atitude de abertura à realidade das coisas e de si mesmo é condição necessária para que o sujeito perceba que a sua vida como um todo é, desde sempre, compreendida no amor divino, ou seja, o ser humano é parte de um todo que o transcende infinitamente. Justamente nessa posição, diferentemente do ideal
filosófico moderno, o homem não figura como instância final de justificação por sua mera capacidade racional. Como bem mostra a experiência existencial do autor das Confissões, a relação de amor com Deus é vivenciada na tensão entre o homem como ser finito e situado, e Deus, do qual se conhece, mais do que atributos expressos em conceitos, a realidade amorosa de sua presença presente em toda alma humana. Ora, acontece que essa mesma relação íntima de amor, também se traduz e se expressa sob a forma de amor ao próximo. Nos termos de Agostinho e também do próprio Cristo, esse amor ao próximo deve ser regimentado pelo amor a Deus, do contrário, corre-se o risco de amar não o que é divino no outro, mas simplesmente a sua utilidade imediata em um tipo de amor parasitário. Nesse assunto, o exemplo de Dostoievski é significativo. O médico retratado na citação anterior apresenta-se como alguém que fez o processo inverso do realizado por Agostinho. De acordo com grande parte da ideologia da modernidade, nota-se no personagem uma forte tendência abstrativa, isto é, a de tomar a sua conjetura como “realidade” e de esquecer a realidade concreta. Em outras palavras, é uma condição frequentemente encontrada no meio materialista e ateísta. Fechado a qualquer tipo de transcendência, seja ela externa ou interna, o indivíduo é obrigado a firmar-se como último âmbito de justificação existencial, completamente ao contrário da experiência agostiniana. Desse modo, há como que uma decorrência lógica do modo de vida assumido para com a conduta a ser vivenciada. Novamente o texto de Dostoievski é um exemplo claro. Postado sobre as bases antropocêntricas modernas, nas quais a razão é o requisito de validade universal (raciocínio típico do cartesianismo), nada mais “natural” do que o objeto de amor humano seja uma ideia. Desse modo, amar o conceito de humanidade (em geral) mas não os homens em particular é uma decorrência lógica necessária de alguém que considera a si mesmo como realidade última a ser experenciada. Nesse ponto, Agostinho e Dostoievski se articulam de maneira surpreendente. Tomadas em conjunto, as reflexões de ambos mostram que há uma estreita relação entre amor a Deus e ao próximo, quando essas realidades são vividas de tal maneira que o homem perceba nelas uma dimensão além e aquém de seu raciocínio. Sem o primeiro polo (Deus), o homem corre o risco de ver a si mesmo como uma existência autônoma e fechar-se ao amor divino. No que toca a essa suposta “autonomia”, a experiência de Agostinho é de grande valia, pois mostra que a existência, em seu todo, é um amálgama de dependências que apontam para uma causa divina. Como conclusão negativa desse fechamento existencial abstrativo, tem-se a fala do médico relatada pelo monge à senhora Khokhlakova. No relato, está presente um
homem que, por não ser capaz de um enfrentamento autêntico consigo mesmo, ama mais a sua ideia (um conceito geral) do que a realidade particular da qual essa mesma ideia deriva, as próprias pessoas em suas mais diversas nuances, trejeitos, feições e personalidades. Assim como o simples conceito de Deus pode ofuscar ou até mesmo suprimir uma relação de amor com ele, também a mera abstração de próximo como conceito de humanidade em geral pode fazer com que se esqueça das pessoas que cercam a cada um, as quais apresentam uma demanda de amor quase indiferente aos juízos que acerca delas se formulam.

Considerações finais

Mediante essa pequena reflexão é possível inferir o quão perigoso é, tanto no âmbito do sentido de vida particular quanto em uma estruturação social, o pensamento que se fecha à concretude de Deus e do próximo fugindo de dessas realidades e refugiando-se em um idealismo sem conteúdo. Deus aqui entendido como Aquele diante do qual o homem é convidado a perceber-se como ser dependente e finito; próximo como aquele que, na sua singularidade, se apresenta imediatamente como alguém sobre o qual incidirão os reflexos das ações de cada um. Colocado sob a égide desses dois polos, Deus e próximo, o homem toma consciência de sua posição limite e, consequentemente, se vê, não por um puro raciocínio lógico dedutivo, mas pelo presentar-se de realidades que o transcendem, a viver de uma forma responsável. Sabe-se o quanto o materialismo e o cientificismo tem editado cada vez mais as pretensas categorias pelas quais as pessoas examinam sua existência. Não que a ciência não tenha proporcionado significativos avanços à humanidade. Contudo, sua pretensão de, pela via materialista, suplantar uma experiência existencial particular como a de sentir-se amado por Deus é, no mínimo suspeita. Por mais que se multipliquem teorias e teorias sobre a origem do cosmos e sobre a evolução, a relação do homem com Deus, vivida na intimidade dessa criatura que transita entre o tempo e a eternidade, está longe de ser exaurida por pensamentos que tomam apenas aspectos da realidade e neles teorizam. Ademais, no que concerne ao amor ao próximo, é de conhecimento de todos que, cada vez mais, o ser humano enquanto tal é tratado sob a forma de abstração: para a economia João um dado, para a estatística Maria é um número, até mesmo na vivência particular as pessoas tem cultuado a falsa necessidade de consumir abstrações, sejam elas a quantidade de “likes” sejam a quantidade de seguidores ou de respostas positivas a um post. Não bastasse isso, a partir do momento que esse pensamento autocentrado
ascende ao poder, corre-se o risco de que as pessoas se tornem algo a ser exterminado em favor de uma ideia geral, os casos na história se multiplicam. Em suma, somente Deus pode arbitrar a história de cada um sem esquecer as particularidades inerentes a todos os homens.
Por fim, na tentativa de responder aos questionamentos colocados no parágrafo introdutório, cabe dizer que sem o amor a Deus o amor ao próximo corre o risco de ficar comprometido, principalmente no que tange a justificação do segundo. O que está em jogo é a atitude existencial a ser assumida: uma de tipo moderna na qual o sujeito é o centro de tudo e, por isso, obrigado a tomar seus conceitos e a realidade verificável por eles como axiomas inquestionáveis; a outra, aderir a uma atitude na qual esse mesmo sujeito se vê como situado e, por isso, dependente de Deus e do próximo para ser o que é. Interessante disjunção essa. No fundo, é preciso muito mais fé para acreditar na primeira atitude, pois deve-se fazer que a conjetura seja tomada como realidade, do que aceitar, com humildade de coração, o fato de que Deus é íntimo à alma e, não obstante, age, concretamente, na vida e na história dos que assim o buscam. Sem dúvida, é até possível ser caridoso com o próximo e negar a existência e a ação de Deus. Tal fato, a despeito da crença ou não em Deus pode e deve praticado por todas as pessoas além de ser um remédio amargo aos que apenas “dizem-se” cristãos, mas estão distantes de um compromisso autêntico com Cristo e com os irmãos, pois, não há como amar a Deus sem amar o próximo. Contudo, o ser caridoso sem crer em Deus está longe de impugnar o primeiro mandamento de Jesus. Como se viu em Agostinho, mais do que uma lei, o amor a Deus figura como uma experiência pessoal irredutível, a saber, a de ser compreendido no amor de Deus e, por conseguinte, perceber Nele o sentido e o fim de existência de cada um. Nesse âmbito, nem o mais ferrenho materialismo pode tocar com suas mais diversas teorias. Ademais, o estar sempre diante de Deus nessa mística relação de amor que só Dele provém, garante que esse mesmo amor se traduza na vivência fraterna entre irmãos. Ao contrário do comportamento do médico explicitado no trecho da obra de Dostoievski, o amor ao próximo não é o amor pela humanidade em geral. Com isso, percebe-se o quanto estão intimamente ligados os mandamentos de Jesus. Muito embora o primeiro tenha precedência ontológica por assim dizer, já que o amor divino a tudo perpassa, ambos se implicam mutuamente, ou seja, sempre que se ama a Deus esse amor se traduz em amor ao próximo; sempre que se ama, verdadeiramente, ao próximo está-se amando a Deus. Nesse sentido, pode-se dizer que
o amor a Deus e ao próximo são conceitualmente separáveis mas realmente unidos. O problema é quando as pessoas confundem os conceitos com a realidade. Nessa atitude invertida, Deus torna-se mero objeto de discussão em uma espécie de multiplicação exponencial de flatus vocis e o próximo, na hipótese mais otimista, torna-se apenas um dado a ser processado pelos novos deuses logarítmicos. Não que a sistematização conceitual de Deus ou do que se entende por fator humano seja ruim em si. Ao contrário, ambas são imprescindíveis para a teologia e a antropologia, por exemplo. O que não é possível, ao menos com base em uma ontologia sincera, é desligar-se da realidade concreta. Nesse ponto Jesus é preciso, ele conecta o universal e o particular, o fundamento e o fundamentado por meio do amor, ou seja, da superabundância da graça divina. Ao mesmo tempo que há uma universalidade na forma dos dois mandamentos, há também a contingência no concerne ao como cada pessoa experencia a ação de Deus em suas vidas e de como elas traduzem essa vivência no amor ao próximo. Com isso, ainda que uma descrição textual como essa fique muito aquém da prática do amor, ao menos pôde-se esclarecer um pouco acerca da possibilidade constante que ronda não só o cristianismo mas todas as pessoas, isto é, a de substituir Deus por um conceito e o próximo por uma simples generalização. Sem dúvida a tarefa é árdua, tudo é mais fácil quando se lida com abstrações. Enfrentar a crueza de si mesmo, do outro e de Deus é uma atitude de coragem, mas que, no fundo, é nela que o homem se realiza. Que a vida de Jesus, que tanto inspirou Santo Agostinho e Dostoievski, continue a ensinar que antes de tencionar teorias e almejar coisas distantes da experiência humana, existe uma dúplice realidade, íntima e constitutiva de cada um, e que sem elas, a despeito de poderem ser ignoradas por toda uma vida, ninguém seria o que é, Deus e o próximo.

Autor: Cônego Jacson Roque Kuskoski

Referências:
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 2002.
DOSTOIEVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. Tradução de Paulo Bezzera. São Paulo: Editora 34, 2012