A HOMILIA

A HOMILIA

Cônego Rafael Smocovitz dos Santos

 

Introdução

 

            Partimos da Igreja e sua natureza, de forma breve e sucinta, para valorizar o lugar e a importância da pregação da palavra de Deus. A Igreja, na definição conciliar é o sacramento de Cristo e deve, por missão, pregar e anunciar este mistério que guarda dentro de si.

            A pregação, ao longo destes dois mil anos de catolicismo, sofreu profundas mudanças, desta forma percorremos este caminho procurando as principais curiosidades e dificuldades ao longo dos séculos chegando até o concílio Ecumênico Vaticano II que revalorizou o lugar da pregação na vida da Igreja e do mundo.  

           

  1. A Igreja e sua missão

 

A Igreja foi prefigurada desde o início da criação do mundo sendo instituído pelo Verbo encarnado, Jesus Cristo, manifestada pela efusão do Espírito Santo: “A Igreja, isto é, o reino de Cristo já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus”[1].

 “A inteira Trindade, portanto, está presente no momento em que se abre o tempo da Igreja”[2]. Desta forma, ela assume a missão de templo do Espírito Santo, corpo místico de Cristo e se torna para o mundo ‘sacramento da salvação’.

Por estar em profunda comunhão ao Deus Trindade, ela instaura o Reino de Cristo ao mundo, não de forma plena, pois este se dará na parusía, mas sim de forma mistérica; pela vida sacramental santifica os seus e vivendo a sua vocação exprime que a Igreja é um povo congregado na Trindade.

Suas notas: una, santa, católica e apostólica, brota deste mistério de comunhão entre a Trindade e a comunidade reunida, novo povo de Deus, “congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.[3]

A única Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica, desta forma, o corpo místico não possui apenas uma representação espiritual como que uma representação visível, e não são duas realidades eclesiais, mas apenas uma.

“Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele”[4], desta forma, a Igreja em profunda relação com a Trindade é chamada a seguir os mesmos passos do Senhor, ou seja, a pobreza e a perseguição, para anunciar ao mundo as obras de salvação.

Na liturgia a comunidade de fé exerce o seu múnus sacerdotal, régio e profético, antecipando a realidade escatológica e alimentando-se do corpo de Cristo, para que encontre forças para realizar as obras que Deus confiou a cada um.

O Espírito Santo torna a Igreja fecunda em santidade, pois Dele provém à unidade e é por meio dele que há uma vivificação do corpo pelos vários dons distribuídos conforme a necessidade, para que o povo, congregado na comunhão, em especial a comunhão eucarística (pão da unidade), possa conformar-se com o Cristo e antecipar as realidades futuras.

A tradição católica reconhece que a Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e, a serviço dessas duas, o Magistério, como a fonte da Revelação. Deus se Revelou ao mundo, se manifestou e comunicou seus desígnios de Salvação. A Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição contêm essa palavra da Revelação; a pregação da Igreja transmite-a; a liturgia celebra e atualiza, porém tudo provém do Espírito de Deus.

 

  1. A pregação

 

            Faremos um caminho de reflexão sobre a história da homilia. Partindo da homilia “como ministério dentro da comunidade cristã”, percebemos que sua ação se torna essencial para anunciar as palavras de Cristo ao mundo. Partindo do período apostólico como uma ‘proto-historia’, a homilia está nos lábios de Jesus e dos Apóstolos junto aqueles que receberam o encargo de “difundir a boa nova do Reino de Deus e da salvação”.

            O predicador primeiro foi Jesus, que se dedicou a pregar a palavra de salvação: foi o verdadeiro mestre, pelas palavras, obras e por sua própria vida. Ele nos ensina os conteúdos da revelação e a forma ‘pedagogia’ da transmissão (ex: parábolas). “Él es el mejor modelo de predicación: sencillo, cercano al Pueblo, dialogante, concreto, valiente”[5].

            Em Lucas 4 encontramos o início da pregação de Jesus que desperta ‘entusiasmo’ a quem o escuta e que culmina, no v.28-30, com a perseguição e o desejo de ‘jogá-lo do barranco’: esse pode ser o protótipo da verdadeira homilia cristã. Outra forma de ‘fazer homilia’ ainda nos passos de Jesus, é a homilia catequética, do qual encontramos, nos discípulos de Emaús, o modelo perfeito.

            A missão de pregar foi entregue por Jesus a seus discípulos. O evangelho de Marcos assim conclui: ide por todo o mundo e proclamai a boa nova a toda a criação… Eles sairám… (Mc 16,15-20).

            Os apóstolos, ‘herdeiros das sinagogas’, seguiram a proposição de uma ‘estrutura litúrgica’: “[6]en la que la celebración de la palavra, además de las lacturas y los salmos, incluía la predicación por parte de la persona que se enconmendaba este servicio”. As primeiras comunidades nasceram desta pregação dos apóstolos, de Estevão, de Felipe e de Paulo.

            Encontramos no Ato dos Apóstolos alguns resumos da pregação de Pedro, de Estevão e de Paulo. Estas pregações aparecem de várias formas: Kerigmática com a evangelização global do mistério de Cristo, a catequese ou didascalia mais sistemática e profunda, a ‘parenesis’, paraclesis moral, as vezes dentro da celebração litúrgica.

            Nem sempre a pregação surtiu efeito, como vemos em Paulo (a não aceitação do discurso sobre a ressurreição em Atenas, ou em Corinto do qual chegou a perder o ânimo frente a resistência da boa nova cristã).

 

2.1 Os primeiros séculos

 

Em 150 temos um bonito testemunho do lugar em que ocupa a homilia do presidente na celebração comunitária da Palavra de Deus como primeira parte da Eucaristia. São Justino, na obra Apologia descreve como era o rito da celebração dominical em Roma: No dia chamado sol… se leem o comentário dos apóstolos e as escrituras dos profetas… Logo, quando o leitor acaba, aquele que preside exorta e incita pela palavra a imitação destas coisas excelsas.

            Tertuliano (197): nos reunimos para recordar os ensinamentos da Sagrada Escritura. Sempre há circunstâncias do tempo presente que nos obrigam a fazer determinadas advertências de reflexão sobre certas verdades. “scripturae leguntur, psalmi cantatur, allocutiones proferuntur petitiones dellegantur”: depois das leituras e dos salmos, vem a exortação e tudo desemboca na oração universal.

            O anúncio do mistério da Revelação, presente na Escritura, manifestada ao mundo na história, deveria ser transmitida, e se supõe que, a Igreja nascente, soube adaptar as culturas geográficas, condições históricas e a nova língua: o latim.

            Podemos destacar Aurélio Agostinho como uma das grandes figuras deste ministério da pregação (antigo professor de retórica, grande pregado).

 

2.2 Alguns aspectos da pregação patrística

 

            Os termos que aparecem em torno da pregação são: Kerigma, pregón, didascalia, catequese, a prática fraterna entre outros.

No sentido latino podemos destacar que o sermão, ou pregação, homilia, evangelização, possuía um caráter de proximidade do Bispo com a sua comunidade. Os sermões (exortação a partir das escrituras que se acaba de escutar) as catequeses (como os grandes tratados ex: Sto. Agostinho “sobre os salmos” e “sobre São João”) os panegíricos (dos defuntos, mártires e santos) e dos escritos polêmicos (contra as heresias).

Era costume que fosse o bispo, ou alguém por ele designado, ‘delegado’ (ex. Valeriano permite Agostinho de pregar) para fazer a pregação. Poderia também haver uma ‘precação conjunta’, vários que pregam de forma sucessiva (que poderia atender diversas línguas: grego, siríaco, latim).

            Tanto a improvisação como a preparação de uma homilia está presente na história das homilias patrísticas. Alguns possuíam facilidade na oratória como Orígenes, São João Crisóstomo, São Basílio e Gregório Nazianzeno (do Oriente) e Santo Agostinho (Ocidente).

            Sermão 352 ‘um jovem troca o salmo’ – Agostinho comenta de improviso.          Na maioria das vezes existia uma preparação, um ‘sistema estruturado’ pois vemos uma qualidade literária única.

Quando pregava?

            Principalmente nos domingos (Justino), mas também alguns dias da semana, por exemplo, nos tempos quaresmais, ou na semana da Páscoa, na festa dos santos.

Duração da homilia

            Demorava um pouco, as vezes quinze minutos até uma hora ou mais (como os sermões de Santo Agostinho), pregavam, na maioria das vezes junto a sede ou algum lugar mais elevado donde facilitava a ‘visão’ de toda a assembleia.

Quem assistia

            Crisóstomo e Agostinho reclamam daqueles que saem depois das homilias, inclusive durante a homilia; ‘o atraso na chegada’     e a ausência dos jovens que preferiam ‘os jogos, o circo e o teatro’. Às vezes encontravam ‘motivos’ para não ir à celebração: trabalho, calor, chuva… Santo Agostinho, no dia de São Pedro e São Paulo reclama ‘amargamente’ da presença de poucos fieis. Durante a quaresma a frequência era maior.

            Às vezes, as pessoas se encantavam com a oratória do pregador; haviam camponeses, crianças e nobres ‘havia uma única celebração’, mais ‘mulheres do que homens’. Por vezes havia o silêncio, por vezes palmas e risos quando ‘agradava a pregação’. Também haviam expressões de ‘não estarem de acordo’ com aquilo que o bispo pregava.

            Estes séculos conheceram grandes pregadores: João Crisóstomo, Basílio, Gregório de Nissa, Orígenes (Oriente); Agostinho, Hipólito, Jerônimo,  Ambrósio, Leão e Carlos Magno. Os leigos participavam, mas não na homilia litúrgica.

 

2.3 O resto da história

 

Depois do século VII não temos uma ‘obra acadêmica’ que reflita sobre tal tema. Seguiam, no período Medieval, uma preocupação com a homilia e a reta formação (ars praedicandi) que seguiam a linha dos Padres da igreja.

Iniciou o costume de ler grandes homilias do passado (sobretudo nos ambientes monacais); alguns pregadores famosos: Antônio de Pádua, Francisco de Sales etc..

O Vaticano II revalorizou efetivamente o ministério da homilia: SC 35, 52. LG  25, 29. DV 1,10,21. PO 4.

Definição do Catecismo sobre a homilia: “a homilia, que exorta e acolher essa Palavra, como verdadeira Palavra de deus, como é verdadeiramente, para coloca-la em prática” (n.1349).

A introdução do Missal Romano e do Lecionário há uma profunda valorização da homilia. As conferências episcopais também exortam o aprofundamento do tema da homilia.

O amor a Deus não é uma moral ou um costume, mas um encontro, em especial com uma pessoa, Jesus Cristo no Espírito Santo.

Desta forma, olhando para o mistério de Cristo pode-se afirmar: Deus é amor! E tal premissa não pode ser esquecida, pois, toda a fonte da Revelação, da ‘auto-comunicação’ e da entrega salvífica está pautada este sentimento, que transcende a realidade humana.

Este sentimento deve ser comunicado a todos os homens de boa vontade, pois “ninguém ama aquilo que não conhece” como refletia santo Agostinho, desta forma, o ministério da palavra deve ser um locus do anuncio fecundo da Igreja.

 

Considerações finais

 

Deus não se cansa de falar, falou pelos profetas, de forma plena no Filho, Jesus Cristo, e hoje brilha ao mundo pela vida sacramental e profética de sua Igreja.

A homilia deve adquirir um lugar de profunda preparação na vida daquele que recebeu esta missão de conduzir o povo de Deus. As palavras não podem soar como flatus vocis, sem vida e vazia de sentido para uma comunidade de fé.

A homilia deve aproximar os fieis do mistério celebrado, para que, por meio dele, a assembleia se aproxime do verdadeiro mistério de Deus.

Nas mãos do que semeia o amor, Deus continua a cuidar dos seus, utilizando os lábios dos profetas, os pés dos missionários e a coragem dos mártires, Deus continua a peregrinar com o seu povo rumo à pátria definitiva.

            Este Deus que age na vida e na história humana se faz próximo e presente nas alegrias e dificuldades, assim como nos narram os salmos bíblicos de um Deus que ao lado dos seus caminha.

Deus não é apenas uma natureza perfeita, é uma comunhão de amor, sendo assim, o conhecemos através de uma experiência de amor, de nos consagrarmos uns aos outros no amor e anunciamos por amor e no amor.

  Que nossas palavras sejam proféticas, cheias de esperança e conforto, e nossa vida seja um verdadeiro “Evangelho vivo”, desta forma, busquemos nas palavras e nos gestos a fidelidade com aquele que nos chamou.

Deo gratia.

 

REFERÊNCIAS

 

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA Lumen Gentium sobre a Igreja. In: DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. São Paulo: Paulus, 2014

JOÃO PAULO II. CATEQUESE do dia 24 de maio de 2000.

ALDAZÁBAL, José. El ministério de la homilia. Barcelona, Centre de Pastoral litúrgica, 2006, p.52.

 

NOTAS

 

[1] LG n.3.

[2] JOÃO PAULO II. CATEQUESE do dia 24 de maio de 2000, n.4.

[3] LG. n. 5

[4] LG n.8

[5] ALDAZÁBAL, José. El ministério de la homilia. Barcelona, Centre de Pastoral litúrgica, 2006, p.52.

[6] Ibid., p.52.