Christus Ecclesiae suae semper adest: Cristo está sempre presente em sua Igreja.

Christus Ecclesiae suae semper adest: Cristo está sempre presente em sua Igreja.

Cônego Rafael Smocovitz dos Santos

 

Introdução

 

            Este trabalho busca adentrar, a partir de dois capítulos, na reflexão pertinente ao número sete da Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia, do concílio ecumênico Vaticano II.

            O título deste número sete se refere à presença de Cristo na liturgia, tema abordado e refletido no primeiro capítulo, que, dando inicio com a Revelação de Deus no Antigo e a Encarnação do Verbo no Novo Testamento, culmina no Mistério de Cristo, donde esse mistério é celebrado e vivido na comunidade cristã, que conta com a ação e presença do próprio Cristo dentro da liturgia eclesial.

            Sua presença se dá como expressão de uma vontade de salvação de todo o gênero humano, neste sentido o segundo capítulo se refere a esta obra de salvação realizada na Igreja, esposa amada do Senhor.

 

  1. A presença de Cristo na liturgia

 

            O cristianismo não é uma religião de verdades acabadas e encerradas na pessoa de Cristo. Não é apenas uma profissão de conceitos morais que se torna dever observá-los.

Mesmo sendo “o Deus vivo e verdadeiro que existis antes de todo o tempo e permaneceis para sempre habitando em luz inacessível”[1], enviou, por causa de seu amor, o Filho, que na história do povo de Israel se encarnou, Ele que era o “Verdadeiro homem, concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu em tudo a condição humana, menos o pecado, anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos, a liberdade, aos tristes, a alegria”[2].

Este homem-Deus, mesmo vivendo tudo isso, não esgotou a profundidade de um Deus absconditus.

            “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho (Hb 1,1)”.

            É belo observar que Deus “fala” a humanidade, na história de um povo, na realidade de uma cultura.  A melhor definição para esse ato de “fala” do Senhor e de sua encarnação é o que São Paulo expressa em suas cartas: o Mysterium.

 

Na linguagem paulina, mysterium significa, acima de tudo, uma ação divina, o cumprimento de um desejo eterno de Deus por uma ação que procede da eternidade de Deus, a qual se realiza no tempo e no mundo e tem seu fim último no próprio Eterno[3].

 

             Esse mistério se tornou uma economia da salvação na encarnação do Verbo, tornando-se Mistério de Cristo, que abraça sua paixão, morte e ressurreição e a obra de redenção para a Igreja.

            O sacrifício da cruz, entrega do homem-Deus naquele madeiro sagrado, se torna um único sacrifício com o sacrifício da Igreja, sua esposa amada. “Da mesma forma que o Senhor se imolou por sua Igreja, esta participa, de agora em diante, de uma maneira ativa no sacrifício de seu Esposo redentor”[4].

            Esse mistério, profundo e inesgotável, torna a Igreja presente neste mundo, mas peregrina a cidade celeste, rica de dons visíveis e invisíveis, diligente na ação, mas profundamente centrada na contemplação.

            Esse mistério de Cristo, entregue a Igreja, não poderia ser continuado sem a sua presença. Tão profundo e grandioso é o mistério de Cristo que por nossos méritos não alcançaríamos, pois ultrapassa a nossa capacidade humana.

            Por isso, devemos entender que Cristo age na Igreja, na liturgia e ações sacramentais, pois sua obra é grandiosa e sua presença necessária.

 

Está presente no sacrifício da missa, na pessoa do ministro […] nas espécies eucarísticas. Está presente pela sua virtude nos sacramentos, de tal modo que, quando alguém batiza é o próprio Cristo quem batiza. Está presente em sua palavra, pois é ele quem fala quando na igreja se lêem as Sagradas Escrituras. Está presente, por fim, quando a Igreja ora e salmodia, ele que prometeu: “onde se acharem dos ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18,20)[5].

  

            Portanto, só podemos entender a presença do Senhor na Liturgia, quando observamos a profundidade de seu mistério. Grandiosa foi sua obra na história da Salvação e tal obra se renova, de maneira incessante na ação litúrgica da Igreja, que possui a santificação do povo de Deus, corpo místico do Senhor, que participa dessa função sacerdotal de Cristo.

  

  1. A obra de salvação presente na Igreja

 

O Senhor continua a guiar e atuar na vida da Igreja com o sinal da comunicação de sua graça salvífica, que o povo, congregado em seu Espírito recebe como dom gratuito de Deus.  

            Podemos recordar o discurso do Papa Bento XVI, em sua última audiência geral, que reforçou tal presença e condução do Senhor frente a sua Igreja: “Como fez o Apóstolo Paulo no texto bíblico que ouvimos, também eu sinto em meu coração que devo, sobretudo agradecer a Deus, que guia e faz crescer a Igreja, que semeia a sua Palavra e assim alimenta a fé do seu Povo”[6].

            O “semear da Palavra” tem lugar privilegiado na liturgia. Na liturgia da Igreja, o Senhor continua a comunicar seu mistério pascal, fonte inesgotável que se atualiza nesta história presente. “Sentado à direita do Pai e derramando o Espírito Santo em seu Corpo que é a Igreja, Cristo age agora pelos sacramentos, instituídos por Ele para comunicar sua graça”[7].

            Grandiosa e majestosa obra, só pode ser realizada pelo próprio Cristo que torna a vida da Igreja, por sua própria presença, sacramento da salvação.

            Observamos que Cristo, presente na liturgia, atua na vida da Igreja, para que todos sejam salvos e a Igreja se torne no mundo um sinal de seu amor e entrega sincera. Sua presença na liturgia renova o mistério pascal na vida da Igreja e dá a graça de continuarmos, imbuídos pelo Espírito Santo, preenchidos da graça salvífica.

 

Considerações finais

 

            O Senhor está presente na ação litúrgica, ação de santificação e salvação deste povo sacerdotal peregrino rumo à eternidade. Cristo Jesus, em seu amor, se entrega e entrega seu mistério renovando-o aos homens de boa vontade, em todos os tempos da história humana.

            Ele preside a liturgia dando a possibilidade ao povo de Deus de experimentar seu amor e misericórdia. A Igreja que celebra os mistérios do Senhor se torna sacramento da Salvação, pois, o próprio Senhor atua em sua vida, dinamiza sua ação, se torna presente e condutor de sua jornada.

            Que possamos experimentar e vivenciar este mistério pascal e sentir a presença de Cristo em cada ação litúrgica de nossa Igreja, para que compreendamos que a igreja é antes de tudo, do Senhor, e é Ele que a conduz.

 

Referências

BENTO XVI, audiência geral dia 27 de fevereiro de 2013, In: http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2013/documents/hf_ben-xvi_aud_20130227.html.  Acesso dia 04/11/2016.

CASEL, Odo. O mistério do culto no cristianismo. São Paulo, Loyola, 2009.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO; Missal Romano. São Paulo, Paulus, 1997.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo, Loyola, 2000.

VATICANO II, concílio ecumênico. Constituição Sacrosanctum Concílium. In: Documentos do Concílio Vaticano II. São Paulo, Paulus, 2014.

 

NOTAS

[1] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO; Missal Romano. São Paulo, Paulus, 1997. p.429.

[2] Cf. Ibid., p. 429.

[3] CASEL, Odo. O mistério do culto no cristianismo. São Paulo, Loyola, 2009, p.22.

[4] Cf. Ibid., p.26.

[5] VATICANO II, concílio ecumênico. Constituição Sacrosanctum Concílium. In: Documentos do Concílio Vaticano II. São Paulo, Paulus, 2014. § 7.

[6] BENTO XVI, audiência geral dia 27 de fevereiro de 2013, In: http://w2.vatican.va/content/benedictxvi/pt/audiences/2013/documents/hf_benxvi_aud_201302.html Acesso dia 04/11/2016.

[7] Catecismo da Igreja Católica, São Paulo, Loyola, 2000. §1084.