A justiça Social no Primeiro Testamento.

 

Sérgio Vinícius Dantas de Oliveira, CRL.[1]

 

A exigência da justiça nasceu, historicamente no seio do Povo de Deus, foi proclamada e exigida em toda a tradição bíblico-profética de Israel, no entanto é sabido que as civilizações que conhecemos do antigo Oriente possuíam códigos e sistemas jurídicos que implicavam leis religiosas, “mas a exigência da justiça quanto ao homem, ser capaz de Deus, não parece ter sido descoberta em sua integridade” (Cf. SICRE p.11)[2].

Encontramos nos textos bíblicos a prescrição da prática da justiça para o Povo de Deus; ao longo de toda sua trajetória, os diversos profetas clamaram em defesa da justiça que é o culto agradável a Iahweh.

Ouvi a palavra de Iahweh, chefe de Sodoma, prestai atenção a instrução do nosso Deus, povo de Gomorra! Que me importa os vossos inúmeros sacrifícios? Diz Iahweh. Estou farto de holocaustos de carneiros e da gordura de bezerros (…) aprendei a fazer o bem! Buscai o direito, corrigi o opressor, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. (Is, 1; 10-11,17).

Aparece claramente na profecia de Isaias que o culto agradável a Deus não é a ritualística sacrifical de uma liturgia desvinculada de uma prática social, mas sim a vida vinculada à justiça sempre em favor dos mais sofridos.

As “obras de misericórdia” são as concretizações da prática da justiça no meio social e já encontramos referências claras a elas no livro de Ezequiel 18;17: “nem explora a ninguém, se devolver o penhor da dívida, não comenta furto; dá seu pão ao faminto e veste o nu”; e também em Isaias: “por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e por em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartir o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestir o nu e em não te esconderes daquele que é tua carne?” (Is 58, 6-7).

Está evidente que “a divindade não se contenta com preces e oferendas é a bondade, a compaixão, e não a maledicência, que fazem com que o homem granjeei seu favor” (SICRE p. 15)[3].

Antes, no entanto de prosseguir com a reflexão da Sagrada Escritura se faz mister conhecer o ambiente em que se encontra o Povo de Deus no Primeiro Testamento, ai entenderemos que não se defende a justiça em abstrato e sim em fatos concretos.

O Povo de Deus tem sua estrutura social primitiva em um nicho social clãnico, isto é, sua organização primária era em tribos familiares, que com o passar do tempo foi se transformando numa estrutura social mais complexa, deixando simplesmente o clã e se tornando um povo; ante esta transformação o que passa a importar é a sobrevivência e o bem estar do grupo.

O que caracteriza essa organização social é a solidariedade e a dependência absoluta do indivíduo ao grupo. Isso cria estrutura que protege os diferentes membros nas mais diversas circunstâncias. (SICRE p.58)[4].

 

Essa estrutura social complexa precisa agora de normas que regulem suas relações internas, obviamente a primeira e grande norma é a crença e a fidelidade a Iahweh e as leis que na aliança selada com o povo estabelece; aqui se faz relevo ao decálogo Ex 20, 1-17 e de toda as outras prescrições que dele derivam como as leis morais e religiosas descritas no capítulo 20 do livro do Êxodo:

Não deixarás viver a feiticeira e quem tiver coitado com um animal será morto. Quem sacrifica a outros deuses, fora Iahweh, será entregue ao anátema. Não afligirás ao estrangeiro nem o oprimido, pois vós mesmos fostes estrangeiros no país do Egito. Não afligireis nenhuma viúva ou órfão, se o afligires e ele gritar a mim, escutarei o seu grito (…) se emprestares dinheiro a um compatriota, ao indigente que está em teu meio, não agirás com ele como credor que impõe juros. Se tomares o manto do teu próximo, tu lho restituirás antes do por do sol, porque é com ele que se cobre, é a veste do seu corpo: em que se deitaria? Se clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou compassivo. Não blasfemarás contra Deus, nem amaldiçoarás um chefe do teu povo. (Ex 22,17-27).

Nota-se a preocupação pela justa administração da justiça, onde o decálogo é a norma mais eminente pelo qual se devem reger os anciãos, juízes, sacerdotes e todo o povo de Israel; parece claro que a implicação social em linhas gerais sobre tudo se refere aos cuidados com os grupos mais fragilizados.

Os sacerdotes e profetas é quem tem a obrigação de orientar o povo e de encaminhá-lo por vereda reta que é o binômio culto-justiça, em outras palavras agir conforme as leis do Senhor Deus na justiça e na fidelidade.

O tema da justiça, por tanto, aparece vinculado a forma de vida da comunidade; é grosso modo, o agir social balizado na retidão da lei do Senhor, viver a justiça é condição para que se manifeste a salvação de Deus.

 

[1] Religioso de votos simples da Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses, graduado em filosofia pela UERN, e graduando em teologia pela UNISAL.

[2] SICRE, José Luis. A justiça Social nos Profetas. Paulinas, São Paulo – SP; 1990.

[3] Ibidem p. 15.

[4] Ibidem p. 58.