Espiritualidade da Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses.

A Patrística relata a natureza e a grandeza do ideal proposto pelo próprio Jesus aos apóstolos: “não leveis nem ouro, nem prata, nem moedas nos vossos bolsos, nem bolsa pra as vossas viagens, nem duas túnicas, nem sapatos; nem bastão” (cf. Mt 10, 9-10; Lc 9, 3-10; etc.).

É a espiritualidade da pobreza, no sentido de ter tudo em comum e para uso do ministério. Todas as vezes que não se viveu o voto de pobreza, houve decadência da vida canonical.

Sacerdócio: a espiritualidade dos cônegos regulares é a própria espiritualidade da Igreja. Temos na Igreja muitos institutos de vida consagrada, que acolhem padres e bispos e que cumprem diferentes funções. Os cônegos regulares vivem fundamentalmente o sacerdócio de Cristo, assumindo assim todas as tarefas pastorais do sacerdote. É por isso que o sacerdócio deve inspirar toda sua espiritualidade e vida.

Vida comum: É a vida comunitária que aparece como elemento fundamental da experiência de vida de S. Agostinho e seus clérigos. A vida comum pode ter muitos aspectos, como viver sob o mesmo teto e entre as mesmas paredes, mas aqui se entende uma verdadeira comunhão de bens, de preocupações, de trabalho, de aspirações; até a união profunda das almas e dos corações.

Liturgia e Ofício Coral: Na história da Ordem a liturgia e o ofício coral, aparecem como a função primordial, porque a adoração e o culto à Deus é a primeira expressão de fé. O Senhor é alfa e ômega, n’Ele está a origem e o fim de toda criatura. A oração deve ser a primeira e a mais sublime atividade de cada batizado, e de maneira especial da pessoa consagrada.

A liturgia é a celebração da fé, portanto presidir a assembléia cristã, proclamar a palavra de Deus, dirigir a oração, oferecer o mistério eucarístico são as atividades próprias do cônego; as horas do Ofício Divino formam como uma coroa ao redor da Missa, coração e cume de toda a liturgia.

A celebração coral do Ofício Divino é uma função tradicional das comunidades canonicais e monásticas, mas as primeiras precedem as monásticas (cf. D. Marmion); a Igreja confia tanto nesta oração coral canonical que sugere que se celebre em quanto possível também nas pequenas comunidade de 3 ou 4 membros.

Para os cônegos regulares é uma honra perseverar fieis a esta salmodia, que foi e pretende ser para sempre sua herança viva e seu primeiro dever.

Ministério Pastoral: Com a reza do ofício coral e com a liturgia eucarística o cônego regular não se omite de seu ministério: seja que reze na presença do povo ou na sua ausência, ele sempre reza em nome da Igreja, sua função vicarial orienta sempre seu coração e pensamento, sua adoração e sua súplica em prol das inúmeras necessidades do povo de Deus.

Os cônegos regulares unem o ministério a santa liturgia e a disciplina regular; não existe para eles um ministério específico, porque são sacerdotes ordenados seja para o serviço paroquial, quer para o serviço educativo, caritativo, apostólico e missionário, segundo as aptidões de cada um. Durante toda sua história os cônegos regulares suscitaram movimentos espirituais, como a “devotio moderna”, a espiritualidade fruto do maravilhoso livro “A Imitação de Cristo” do cônego Tomás de Kempis; famosa também foi a escola espiritual de S. Victor de Paris, com seus incentivadores Hugo, Ricardo, Adamo, Acardo e Tommás Gallo.

A Congregação Lateranense, na segunda metade do século XV e XVI desenvolveu uma forte atitude de caráter espiritual, os autores inspiraram-se de algum modo na devotio moderna, aos victorinos e outros autores. Aqui lembramos só Paulo Maffei, Serafino de Fermo, Pedro de Lucca, Serafino de Bologna, Alexandre Torre e a cônega beata Battistina Vernazza, que escreveu obras espirituais de grande valor.

Também não podemos esquecer cônegos e cônegas famosas pela evangelização e espiritualidade, tais como: S. Torlaco evangelizador da Islândia, S. Meinardo apóstolo da Lituânia; Santa Bona, declarada pelo papa S. João XXIII patrona das aeromoças; S. Pedro Furrier o primeiro a criar escolar para a promoção feminina.

Nos últimos tempos cônegos famosos foram o abade Giuseppe Ricciotti, grande biblista que escreveu mais de 600 obras entre livros e artigos (é de sua autoria a “Vida de Cristo”, traduzida em mais de 40 línguas).também é famoso o abade Carlos Egger, um dos maiores latinistas que escreveu em latim todos os documentos papais e do Concílio Vaticano II.

No campo litúrgico, antes do Concílio Vaticano II, grandes cônegos trabalharam para a atualização da liturgia, como o côn. Adriano Grea e o côn. Pio Parch.