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Os Ricos na obra Lucana.

 

Sérgio Vinícius Dantas de Oliveira, CRL [1].

 

De acordo com o evangelho segundo Lucas, o anúncio da boa nova da libertação dos pobres constitui o centro da mensagem de Jesus. Basta lembrar a solene introdução à vida pública de Jesus de Nazaré, “o Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres” (Cf. Lc. 4,18).

O evangelho dirige-se aos pobres, e Lucas respeitou essa orientação ao redigir seu evangelho. Jesus veio para os pobres. Seu evangelho dirige-se aos pobres, sendo para eles a resposta à imensa aspiração de libertação.

“Os Pobres são abençoados por que Deus os escolheu como agentes construtores de uma nova sociedade e uma nova história. Eles constituem o núcleo profético” [2].

Assim, depois de ter centrado todo o seu evangelho na pobreza, Lucas encontra-se diante de um problema: se o evangelho se dirige aos pobres, o que acontece com os ricos? Ele sente que seu evangelho deixa os ricos desconcertados. Se Jesus veio para os pobres, qual será o lugar dos ricos?

Os Atos dos Apóstolos trazem a resposta a esse problema. Aí está contida a resposta à preocupação dos ricos que se encontram em número significativo nas comunidades cristãs.

“Os historiadores das origens cristãs mostram que desde o início houve convertidos ricos e que esses ocuparam posição de destaque nas comunidades — como não poderia deixar de ser. Essa presença foi, sobretudo, significativa nas comunidades gregas, como consta nas epístolas paulinas” [3].

Um sinal de que os livros de Lucas se dirigem mais propriamente aos ricos convertidos está no destinatário, conforme defende o teólogo Comblin: “O livro dirige-se a ‘Teófilo’. Pouco importa se Teófilo designa pessoa com esse nome, ou se Teófilo é qualificativo que eventualmente representa todos os ‘Amigos de Deus’ (‘teófilo’). De qualquer maneira, trata-se de pessoa de consideração. O evangelho de Lucas, completado pelos Atos, é o único evangelho destinado a uma pessoa (ou grupo de pessoas). Os outros são destinados a uma comunidade ou a várias comunidades. Por que esse interesse particular de Lucas, que, de certo modo, cria um privilégio? É difícil imaginar que Lucas tenha escrito essa obra especialmente para um pobre. Trata-se de pessoa importante (ou de grupo de pessoas importantes) humanamente falando. A obra de Lucas mostra que pessoas importantes humanamente falando, também podem ser importantes eclesialmente falando” [4].

O interesse pelos ricos e o destaque que eles recebem no livro dos Atos percorre-o por inteiro, a começar pela primeira comunidade em Jerusalém. Nessa comunidade, onde havia tanta comunhão, fraternidade, e também tantos pobres, Lucas cita apenas três nomes (todos de pessoas ricas): Barnabé, Ananias e Safira, porque quer exortar e advertir os ricos, aos quais se destina o livro, como percebemos na leitura do Comblin.

Como exemplo de comunhão na comunidade primitiva, Lucas refere-se à generosidade de um homem rico: “Barnabé. Como mau exemplo, cita igualmente um casal de ricos. Por quê? Com certeza porque o problema de Lucas é a presença e o comportamento que se esperam dos ricos. Lucas exalta Barnabé e condena Ananias e Safira, porque quer exortar e advertir os ricos, aos quais se destina o livro”[5].

Em Antioquia havia cinco dirigentes de comunidades. Entre eles estavam Barnabé e Saulo. Barnabé era rico e Saulo também, pelo menos de nascimento e formação. Entre eles destacava-se Manaém, “companheiro de infância do tetrarca Herodes” (cf. At. 13,1). Esse, com certeza, era rico.

“O livro dos Atos confere ao dinheiro importância especial. Isso confirma que esse livro foi escrito para os ricos. O dinheiro é preocupação contínua para eles. A conversa dos ricos gira sempre ao redor do dinheiro. A preocupação pelo dinheiro ocupa continuamente sua mente. Tal como acontece hoje, acontecia também no passado. Os ricos enxergavam a vida pelo lado do dinheiro. Por isso Lucas fala muito em dinheiro” [6].

Lucas narra o episódio do motim provocado pelos artesãos que viviam do comércio de objetos religiosos dedicados ao culto de Ártemis. São vinte versículos para um episódio que nada nos revela sobre o ministério de Paulo. O problema aqui também é dinheiro. Toda uma profissão está ameaçada e com ela a prosperidade da cidade de Éfeso, santuário riquíssimo que atraía peregrinos “do mundo inteiro” (cf. At.19,27). De novo o assunto é dinheiro.

Antes disso, evocando a missão de Pedro e João na Samaria, o que chama a atenção do autor é o episódio do mago Simão. Simão queria fazer fonte de dinheiro o poder “mágico”, conforme pensou; que tinha descoberto nos apóstolos.

O primeiro conflito interno da Igreja, e o único mencionado por Lucas em todo o livro dos Atos, refere-se à questão da manutenção das viúvas helenistas (Cf. At. 6,1). Mais uma vez a questão gira em torno de dinheiro.

“Na comunidade primitiva o interesse concentra-se na partilha dos bens, situação que deveria espantar os ricos (cf. At. 2,44-45; 4,32-37). Claro que essa comunhão dos bens é novidade extraordinária numa sociedade tão dividida socialmente como era o caso da sociedade imperial” [7].

De modo concreto, para os ricos, em que consiste a partilha dos bens? Lucas aponta aos ricos o caminho da esmola. Porém, não se deve entender esmola no sentido atual da palavra. Hoje, dar esmola é dar parte insignificante da riqueza, que em nada altera a vida de quem a oferece. Os ricos são chamados a, altera suas vidas.

As fórmulas famosas: “‘punham tudo em comum’ (cf. At. 4,32), ‘tudo partilhavam’ (cf. At. 2,44), não devem ser tomadas em seu sentido rigoroso, ao pé da letra. Igualmente é preciso relativizar as fórmulas genéricas: ‘Vendiam as suas propriedades e os seus bens para repartir o dinheiro’ (cf. At. 2,45), ‘os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas, e os depunham aos pés dos apóstolos’ (cf. At. 4,34-35). Essa generalização trata-se de fórmula de retórica” [8].

Há espaço para os ricos na Igreja de Deus. Para isso, basta imitar o exemplo de Barnabé — reforçado, aliás, no evangelho pelo exemplo de Zaqueu. O rico pode salvar-se ao colocar sua riqueza a serviço da comunidade.

A conversão ao evangelho e a entrada na comunidade cristã não mudam o caráter das pessoas. Cada pessoa traz toda a sua história e a sua cultura dentro de estruturas que são a herança de centenas de gerações; o ideal da comunidade cristã não é a igualdade, e sim, como diz São Paulo, a diversidade dos carismas na unidade da fé e da caridade.

“A obra de Lucas foi uma resposta aos ricos convertidos do primeiro século. Guardadas as proporções, a resposta continua valendo para os nossos dias. Se o povo de Deus é dos pobres, há espaço para os ricos que colocam a sua riqueza à disposição dos pobres. Não precisam necessariamente tornar-se semelhantes aos pobres — que, no fundo, é impossível. O que os integra no povo dos pobres é o dom de si próprios — o dom de suas capacidades” [9].

 

[1] Religioso de votos simples da Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses, graduado em filosofia pela UERN, e graduando em teologia pela UNISAL.

[2] Storniolo, Ivo. Como Ler o Evangelho de Lucas: Os Pobres Constroem a Nova História. Ed. Paulinas. São Paulo – SP. 1992.p. 71.

[3] Comblin, José. Ricos e Pobre nos Atos dos Apóstolos. In: Rev. Vida Pastoral, maio-junho de 2001. Ed. Paulus; São Paulo – SP. 2001.

[4] Ibidem.p.3.

[5] Fabris. R. Atos Dos Apóstolos. Ed. Paulinas; São Paulo – SP. 1984.

[6] Comblin, José. Ricos e Pobre nos Atos dos Apóstolos. In: Rev. Vida Pastoral, maio-junho de 2001. Ed. Paulus; São Paulo – SP. 2001.

[7] Storniolo, Ivo. Como Ler Os Atos Dos Apóstolos: O Caminho do Evangelho. ed. 3ª. Ed. Paulus. São Paulo – SP. 1993.

[8] Ibibem.

[9] Comblin, José. Ricos e Pobre nos Atos dos Apóstolos. In: Rev. Vida Pastoral, maio-junho de 2001. Ed. Paulus; São Paulo – SP. 2001.