Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho da Congregação do Santíssimo Salvador Lateranense.

            Na história da Congregação Lateranense é preciso distinguir três grandes períodos: o primeiro se refere ao antigo priorado regular de Latrão (isto é, a casa central com várias dependências); o segundo se refere á verdadeira e autentica congregação, nascida no século XV; o terceiro, quando a Congregação Lateranense une-se á Congregação Renana (1823).

            Segundo João, o diácono, (Liber de ecclesia Lateranense, 8; PL 78, 1387 e 1552) na segunda metade do século XI, isto é logo depois do Sínodo Lateranense de 1059, Alexandre II (1061-1073), renovou a vida dos cônegos regulares da basílica Lateranense. Segundo a opinião dos historiadores da Ordem, isto aconteceu no ano 1061. Antes destes cônegos, isto é a partir do século IX, parece que houve cônegos que viviam segundo a regra de Aquisgrana; neste sentido se poderiam interpretar algumas passagens de Hildebrando, o futuro papa Gregório VII, durante o Sínodo Lateranense; além disso, havia uma disposição do concílio romano do ano 826, que prescrevia de construir um claustro junto á igreja, onde os clérigos “pudessem dedicar-se á disciplina eclesiástica”.

            Alexandre II tinha sido bispo de Lucca, onde já existia um clima de reforma de vida canonical, e por isso foram chamados para o capitulo do Latrão os cônegos regulares do florescente priorado de S. Frediano de Lucca. Este era um centro de vida canonical com várias casas filiais do tipo daquele de S. Maria in Porto na cidade de Ravenna, cuja regra chamada justamente Regra Portuense, foi seguida pelos mesmos Cônegos Regulares de S. Frediano. No ano de 1106 Pascal II concede a Rocio, prior de S. Frediano a paróquia anexa á Basílica de Latrão (Kehr, p. 26).

            A casa mãe de Lucca exercia naqueles tempos uma forte influência no priorado Lateranense. No ano de 1155 o papa Anastácio IV confirma, seguindo o exemplo de Alexandre II, a Ordem Canonical de S. Agostinho, os bens e o direito de eleger o prior, o qual todavia deveria ser totalmente livre como a principal mãe e senhora (Kehr,p.28). Deste modo está decretada a ereção do Priorado independente.

            Os pontífices foram generosos em favores espirituais e temporais em prol dos Cônegos Regulares e de sua catedral. Assim várias igrejas e propriedades foram incorporadas ao Priorado Lateranense. João, o diácono, refere que o papa Alexandre lhe tinha concedido “muitos poderes em diferentes cidades e lugares”. Inocêncio II confirma ao prior Donato a doação da igreja de S. Mário em Collescipoli (Kehr, p.27). Lúcio II confia aos Cônegos Regulares Lateranenses, durante o mandato do prior Bernardo, a igreja de S. João da Porta Latina, como também o hospício Lateranense. Anastácio IV acrescenta a igreja de S. Gregório com o palácio. Segundo a bula de Gregório IX, o priorado Lateranense possuía, além das referidas igrejas, outras em muitos lugares (Terni, Avezzano, Spoleto, Amélia, Frascati, Valmontone, Carpineto).

            O priorado regular de Latrão teve seu maior desenvolvimento sob os priores Bernardo e João, este último no tempo do papa Alexandre III. Neste período conclui-se o maravilhoso claustro da Basílica Lateranense. Uma inscrição em hexâmetros leonianos, depositada no mesmo local, lembra a vida regular dos cônegos:

Canonicam formam sumentes, discite normam

Quam promisistis, hoc claustrum quando petistis.

Discite sic esse tria vobis adesse necesse:

Nil proprium, morem castum, portare priorem.

 

Assumindo a forma canonical, aprendeis a norma,

Que prometestes, quando pedistes este claustro.

Aprendeis que três coisas são necessárias:

Nada de próprio, costume casto, obediência ao prior.

             Os Cônegos Regulares Lateranenses permaneceram na Basílica até setembro do ano de 1299, quando foram substituídos, por vontade do papa Bonifácio VIII, por quinze cônegos seculares. O motivo da mudança foi o fato de que os cônegos seculares pertenciam ás maiores famílias romanas e por tanto eram mais aptos a defender os bens da basílica e seus direitos. Assim a vida canonical regular foi interrompida por 140 anos.

            A Ordem Canonical, durante o Cisma do Ocidente (1378) encontrava-se em uma situação miserável; a observância religiosa era relaxada, e os bens da igreja eram explorados por seus comendadores. Neste tempo surgiu na Itália uma reação positiva. Alguns membros decididos a salvar sua instituição, iniciaram uma reforma de vastas proporções. Leão Gherardino de Carater, piror da canônica de S. Pedro em Ciel d´Oro em Pavia, e seu colega Tadeu de Bagnasco, autorizados pelo abade, se dirigiram a S. Maria de Frigionária, que era um priorado dos cônegos regulares em Lucca, mas na época abandonado. Era mais ou menos o ano 1401.

            O inspirador dessa iniciativa foi o sacerdote romano, Bartolomeu de Roma, grande pregador. A finalidade dos dois cônegos era restaurar a perfeita observância da regra de S. Agostinho e das outras prescrições da Ordem.

            A observância regular foi assim restabelecida neste priorado, e nos outros priorados que se juntaram a esta comunidade: S. Maria de Casoreto (Milão, 1405); S. Leonardo (Verona, 1407); S. Maria em Tremiti (1412), S. Maria da Caridade (Veneza, 1414); S. Victor e S. João em Monte (Bologna, 1417), o priorado de S. Maria em Porto (Ravenna). Todas estas casas foram reunidas, com a bula do papa Martinho V em 30 de junho de 1421, em uma Congregação chamada Congregação de S. Maria em Frigionaia.

            Depois de alguns anos de consolidação interna, retomaram-se as atividades renovadoras sob o pontificado de Eugênio IV. Este papa, já membro de S. Jorge de Alga (Veneza) promoveu a reforma do capítulo de S. João de Latrão. O mesmo tinha feito, quando cardeal, na basílica de S. Paulo fora dos muros, com a instalação dos beneditinos da jovem Congregação de S. Justina de Pavia. Assim Eugênio IV restaurou a tradição canonical regular com a presença dos cônegos regulares afastados pelo papa Bonifácio VIII. Mas a volta não acontece sem obstáculos, tanto que o restabelecimento total se dá somente em 1444. Com a bula do dia 10 de janeiro de 1445 o papa Eugênio IV doa á Congregação de S. Maria de Frigionaia o título Congregação do Salvador de Latrão. Ainda assim a vida canonical não foi pacífica: depois da morte do papa Nicolau V, houve uma nova expulsão dos cônegos regulares (1455), que provocou para a Congregação uma grave crise. No ano de 1466 a Congregação voltou novamente à basílica por vontade do papa Paulo II, mas após sua morte houve, sempre por causa da administração dos bens, a expulsão definitiva (1471). Contudo a Congregação, com o decreto do papa Sisto IV (1472), conservou o título e os privilégios concedidos graças á sua permanência na basílica. O mesmo papa concedia em 1483 a igreja de S. Maria da Paz, que se tornou a cede do procurador geral da Ordem.

            No mesmo período juntaram-se á Congregação muitas outras casas canonicais, entre elas a canônica de S. Cruz em Mortara (1449), S. Maria de Piedigrotta em Nápoles (1453); S. Pedro em Ciel d´Oro em Pavia (1503), e S. Frediano em Lucca (1517). Gregório XII em 1408 suprimiu a estabilidade, de maneira que os cônegos eram transferidos aonde havia mais necessidade. O período áureo da Congregação foi durante o século XVI, tempo de fervor e fidelidade ao espírito da reforma iniciada no século anterior: as comunidades eram numerosas, a atividade no campo espiritual e cultural intensa, o apostolado da pregação fecundo e um profundo espírito contemplativo.

            No ano de 1600 assiste-se a um certo declínio: os capítulos gerais têm que insistir continuamente sobre a observância regular e mostravam preocupação pelos problemas econômicos. No entanto havia ainda um grande número de casas com mais ou menos 1.300 religiosos.

            A situação piora no século XVII. Várias casas foram supressas mediante breves pontifícios entre os anos de 1770 e 1798 na Toscana, no Veneto e no Piemonte, e seus bens devolvidos aos governos. As outras casas foram perdidas durante os movimentos revolucionários da dominação napoleônica na Itália (1810). A única comunidade que sobreviveu foi a de S. Maria de Piedigrotta em Nápoles.

            A restauração deve-se á obra tenaz de um cônego regular da Congregação Lateranense, que conseguiu a união com a Congregação Renana de Bologna: este cônego foi Vicente Garofali, promovido depois a arcebispo de Laodicéia. Com a aprovação de Pio VII, e com a ajuda do cardeal Pacca, ele conseguiu reunir os melhores elementos das duas Congregações, Lateranense e Renana, no ano de 1823.

            Com tal união inicia o terceiro período da instituição canonical, com o nome definitivo de Cônegos Regulares Lateranenses, cujo primeiro abade foi o próprio Vicente Garofali. Reuniram-se várias casas sobre tudo da Congregação Renana. No ano de 1837 foram publicadas as constituições da Congregação com forte espírito Lateranense.

            Mas com a unificação da Itália aparecem novas e graves dificuldades. Todas as casas italianas foram suprimidas. E quando faleceu o abade geral Strozzi, em 1867, não foi possível celebrar o capítulo geral por causa da dispersão dos religiosos. A Santa Sé nomeou como vigário geral o abade Passeri, o criador da associação feminina conhecida como Pia União das Filhas de Maria. Por causa desta situação italiana, os cônegos foram obrigados a procurar novas soluções no estrangeiro. Em 1873 alguns cônegos se estabeleceram em Beauchâine (França) e em outras duas casas.

            Mas, sendo expulsos de lá pelo governo, os cônegos regulares foram para a Inglaterra e a Espanha (1884). Como consequência das injustas leis de 1901, não podendo voltar a Beauchâine, foram abertas novas casas na Belgica (Louvain, Liège, Namour, Bouhay). Criaram-se assim as províncias Franco-belga, Inglesa e Espanhola. Esta última enviou um grupo de padres à América Latina (1899). Em 1900 foi criado em Salta (Argentina) um colégio de relevante importância. Em seguida abriram-se outras casas na Argentina e no Uruguai.

            No ano de 1892 a antiga prepositura de Corpus Christi, de Cracóvia (Polônia) uniu-se á Congregação Lateranense. Depois da segunda guerra mundial, foram abertas outras casas que se uniram á nova Província polonesa (1952).

            A província espanhola fundou em tempos recentes uma casa nos EUA e no Caribe. No ano de 1947 a província italiana deu inicio a uma missão no Brasil. Os dois primeiros missionários foram o cônego polonês Arcangelo Sysk e o cônego Domingo Tonini, italiano; que se fixaram no pequeno distrito de Caxias do Sul, chamado S. Lúcia do Piai, com a esperança de crescer neste imenso país. Chegaram outros confrades, que iniciaram a difusão da Ordem em S. Paulo (1953) e em Curitiba (1983).

            Em São Paulo os cônegos se estabeleceram em um bairro muito longe do centro com pouquíssimos recursos. Mas com a graça de Deus, a colaboração da província italiana, e a generosidade dos fieis, conseguiram construir uma grande e majestosa igreja dedicada a Nossa Senhora dos Remédios; consagrada pelo card. Paulo Evaristo Arnes. Em seguida, para responder ás necessidades do povo, a maioria imigrante do nordeste, construíram um prédio escolar com diferentes cursos, diurnos e noturnos; e também uma creche para 300 crianças.

            Desde o inicio os padres preocuparam-se de cuidar da pastoral vocacional com um seminário menor em S. Lúcia, atualmente sede do noviciado, em Caxias foi construído um segundo seminário para estudantes de nível médio; a comunidade de Curitiba acolhe jovens seminaristas estudantes de filosofia. E em São Paulo termina-se a formação com o curso de teologia.

            Também a província Franco-belga, obrigada a retirar seus missionários do Congo, por causa da revolução, enviou seus missionários ao Brasil, abrindo um novo centro canonical no estado da Paraíba, era o ano de 1968.

            Com a morte do último missionário francês, os confrades italianos, já com suficiente número de confrades brasileiros, assumiram a mesma terra, instalando-se na cidade de Solânea e em seguida na cidade de Campina Grande. Neste mesmo tempo foi aberta uma nova comunidade na diocese de Nova Iguaçu (Rio de Janeiro), cujo bispo atual é um cônego regular, D. Luciano Bergamin.

            Hoje o Brasil, tendo-se tornado província autônoma no ano 2000, está constituída de nove comunidades a serviço de 13 paróquias e numerosas capelas, e um centro de espiritualidade nas cercanias de Pirapora do Bom Jesus (São Paulo).